Uma tragédia familiar me trouxe ao mundo como sucedâneo e eu falhei feio, que me perdoem meus pais
- Aderbal Machado

- 16 de ago. de 2023
- 2 min de leitura
Num 16 de agosto, 1943, papai e mamãe sofriam um choque: morria, afogado no rio Araranguá, meu mano mais velho, Adherbal Telésforo. Aquilo demoliu papai e mamãe. Mas resolveram ter um substituto. E então nasci eu, em 10 de maio de 1944, exatos nove meses depois. Com o mesmo nome, retirado o "h" e sem o Telésforo.
A pretensão de substituí-lo, como queria papai e mamãe, ficou nisso: no nome. Inteligente, estudioso, artesão emérito, pesquisador, ativo, era um fenômeno aos 15 anos, qualidades jamais alcançadas por mim.
Decidiu ele, naquele 16 de agosto de 1943, segundo os relatos, andar de canoa no rio, a partir do nosso terreno à sua margem, num barranco íngreme, em casa nossa lá na Praça Hercílio Luz. Levou amarrado ao pulso o cãozinho Zulu. Com ele, creio, estavam Alírio Silva, sobrinho, e Attahualpa, o outro mano. Ambos escaparam, mas ele não conseguiu. Primeiro, não nadava. E segundo, o cãozinho amarrado ao pulso. Morreram ambos. Uma tragédia imensa.
Sinto isso, sempre senti, como se o tivesse conhecido, pois as narrativas sobre ele povoaram minha imaginação, tal a assiduidade com que papai, mamãe e os manos falavam dele. Tenho até hoje trabalhos dele em meus arquivos, como colagens de artistas de sua preferência e escritos. Tudo herdado de papai e mamãe, após seus falecimentos. E isso marcará ad eternum minha vida.
Ficaram Attahualpa, Aryovaldo, Agilmar, Icleia e Aimberê. Os dois primeiros e último falecidos também. Devem estar confraternizando lá em riba. E olhando pra mim, o Pindeco (como me chamava mamãe), o Silóco, como me chamava Aimberê. Ou como o "raspa-de-tacho" (o caçula), como me chamavam Aryovaldo e Attahualpa.
(Na imagem ilustrativa, atrás, da esquerda para a direita, Attahualpa e Adherbal Telésforo. Abaixo, Icleia, Aimberê e Agilmar. Nesta não apareceu o Aryovaldo)











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