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Pindeco e Silóco, apelidos que nunca entendi, e o terror do gato amarelo na infância cheia de luzes

Travo, de vez em quando, memoráveis batalhas com minúcias da minha infância. Exemplo: Aimberê e mamãe me chamavam por dois apelidos, os quais até hoje nem sei o significado ou a razão pela qual me chamavam assim. Aimberê me tratava de “Silóco”, mamãe me chamava de “Pindeco”. Busquei na Internet. Tem nada lá, exceto algumas referências geográficas no caso de Pindeco. Já o apelido de Silóco é ininteligível por completo.

 

Engraçado ainda é o fato de eu atender a ambos. Assim foi por um bom tempo. O Aimberê ainda variava: ora me chamava também de Negão (e isto durou até seus dias finais, enquanto nos encontramos) e de “Raspa do Tacho” – tratamento também usado por César, Aryovaldo e Agilmar, os outros três irmãos. O significado é mais simples. “Raspa do Tacho” é o derradeiro, o último (filho a nascer). Fui eu.

 

Os nossos entendimentos familiares iam daí pra todos os detalhes mais afortunados ou inóspitos. Aimberê adorava me assustar com o “gato amarelo”. Ele conseguiu me infundir pavores pelo tal “gato amarelo”. A cada vez que eu tentava alguma arte ou enfrentá-lo, ele repetir: “Olha o gato amarelo”. De onde veio isso? Eu sei. Lá em casa havia a despensa, uma dependência escura ao lado da cozinha, grande, com todos os badulaques do mano falecido, Adherbal. E uma ocasião entrei lá, na escuridão e vi um vulto de um animal sentado no chão. Imaginei ser um gato. Amarelo. Corri feito um doido, de medo do “gato amarelo”. O erro foi contar a história pro Aimberê. Ele usou isso por muito tempo pra me engagaçar.

 

Em compensação, falando em momentos e detalhes afortunados, Aimberê colecionava gibis e eu era um leitor feroz deles – desde Allan "Rocky" Lane até Roy Rogers e Durango Kid. Papai colecionava Seleções do Reader’s Digest. Desde o primeiro número. Ano por ano. Mês por mês. Eu era leitor assíduo também. E papai tinha coleções inteiras de revistas sobre a Segunda Guerra, as quais li também todas, letra por letra. Talvez por isso seja um apaixonado pela história do conflito.

 

Contar isso me faz voar nos sonhos do passado, imaginando-me andando de bicicleta pelas largas avenidas do Araranguá ou pelos interiores de Criciúma, correndo pelas areias e gramados dos jardins. Ou - salve-me Deus em me deixar lúcido nessas lembranças -, os bucolismos da minha Boa Vistinha do Turvo, antes Araranguá.


(NA FOTO, EU NA BOA VISTINHA, À SOMBRA DAS BANANEIRAS, DEBAIXO DOS LARANJAIS")


No dizer inolvidável e inspirador de Casimiro de Abreu:

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!


Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!


Como são belos os dias

Do despontar da existência!

— Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;


O mar é — lago sereno,

O céu — um manto azulado,



 
 
 

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