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O Natal, visto por um ex-menino sem presentes e com carências

Talvez seja impróprio dizer isso. Hoje. E sempre.

Talvez seja indevido relembrar as amarguras de uma criança pobre no Natal.

Quem sabe doa em tantos, como, por tantos anos, doeu em mim.

Relembro, todavia, para demonstrar a superação interna e externa vivida por mim.

Haverá quem tenha vivido - E VIVA - transes piores ou iguais ainda hoje.

Então é apenas, creio, necessário machucar um pouco para alertar para as iniquidades humanas forjadas nas misérias materiais, afinal ressonantes lá dentro de cada um, quiçá.

A vantagem é que, apesar disso, estou aqui, como outros estão, apesar dos pesares.

Escrevi isso há muitos anos e nem lembrava. Mas o amigo e seguidor Carlos Alberto Alves ripostou na sua timeline e aproveito para colocar aqui:

O NATAL É FESTA TRISTE


O Natal se me apresentou, sempre, como uma festa solitária.

A expectativa do dia me afigurava triste, pois a convicção de nada receber me assaltava. Papai não era muito de dar presentes. Jeito dele. Mamãe é que compensava.

A preocupação de mamãe era suprir aquela carência que ela, analfabeta, conhecia pela simples intuição de medir a reação de um menino jeca, sem horizonte, solitário e até um pouco triste. Este era eu.

Mamãe também não costumava receber presentes. Trocávamos isso, eu e ela, em todo Natal. Eu saía a procurar algo que pudesse comprar. Lembro de uma louça que lhe dei, verde escura, para colocar bombons. Mamãe não colocava bombons, pois não os consumia. Minha inocência desconhecia isso. Só queria dar o presente.

E ela, preocupada, buscava na rua um pouco de palha, grama seca, pegava um “santinho”, uma figurinha do Menino Jesus, colocava no meio, armava sob minha cama, arranjava cinco cruzeiros e punha ali, à guisa de presente.

E ficava espreitando minha reação. Nem sempre era efusiva. Só para agradá-la. Ou não decepcionar seu esforço. Eu queria um brinquedo. Qualquer um. E poucas vezes ganhei.

O Natal, por isso, sempre me soou meio triste.

E talvez por isso não tenha adquirido o hábito de mandar mensagens, dar presentes – e os dou quase como um autômato, para seguir o ritual. Infelizmente, não consigo absorver o que muitos absorvem, como a tal alegria do Natal.

Já adulto, ainda solteiro, lembro de um amigo que esperava o Natal para estrear uma roupa nova e sair a visitar amigos e ir a festas. Ao comprar minha primeira roupa, tentei fazer isso e a desilusão aumentou. Meus amigos não faziam festas e nem iam a festas – todos pobres e, talvez, tão frustrados e desesperançados como eu.

E isso me dói mais ao saber que há tantos milhões no mundo, ainda hoje, mais de meio século depois, com as mesmas frustrações. E ficam muitas dúvidas sobre a “evolução” do mundo.

 
 
 

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