Já fui militar - e bom, sem falsa modéstia e deveria ter engajado
- Aderbal Machado

- 3 de mar. de 2024
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O confronto diário com as realidades criam choques e surpresas. Com vividos quase 80 anos, a impressão de ainda não ter visto tudo se revigora a cada momento. Encontro por aqui pessoas as quais conheci ao longo dos anos passados. Até um ex-soldado do Exército cujo serviço se deu no mesmo quartel, o 14º Batalhão de Caçadores de Florianópolis, nos idos de 1963-1964. E a cada encontro, desfilam diante dos meus olhos episódios saudosos. No Exército, na flor dos meus 19 anos, integrei as mobilizações do movimento militar de 1964, correndo o estado sobre carroçarias de caminhões basculantes do Estado, chamados “tombadeiras”, convenientemente forrados com colchões de palha pra gente se confortar um bocadinho. E assim estivemos guarnecendo ou cumprindo missões em Laguna, Imbituba, Criciúma, Tubarão e na região Serrana. Nada de mais extraordinário houve entre nós ou conosco, mas prevaleceu a vivência das carências de locais para descansar, por exemplo. A alimentação convencional do Exército deu lugar a ofertas espontâneas da população, através de restaurantes locais e mesmo famílias. Assim fortalecemos laços com a comunidade local, cujo respeito por nosso trabalho sempre se mostrou evidente e forte.
Muitas filosofias podem ser tiradas daí. A mais forte é a capacidade de resistência até inimaginada por nós mesmos. O jeito de se adaptar a situações complicadas, muitas vezes, até com ares de graça, pois a nós nos parecia uma diversão, por mais contraditório que pareça.
Outro fator era a convicção do poder sentido, quando se saía pelas ruas reverenciados por todos. Dava uma sensação de segurança o fato de se andar paramentado com armamento, cintos de guarnição e a pose cívica.
O Exército foi uma escola e tanto, com reflexos até hoje, 60 anos depois. Por isso, jamais alguém engraxou meus sapatos, por exemplo. Nunca me barbeio em barbearias. Minha roupa, por uma quase gentileza, minha esposa Sonia passa a ferro. Mas se for preciso, eu o faço sem dificuldade ou queixa. Porque no Exército isso era normal. A barba era diária e não barbear-se rendia até punição. Roupa desabotoada também. Coturnos sujos, nem pensar.
O principal reflexo do Exército, contudo, foi a disciplina. Nos compromissos, nas atividades profissionais, nos horários e nos tempos das coisas (isto também se reforçou com a atividade de rádio e televisão).
Afinal, fui um soldado “caxias” (de alta disciplina e cumpridor dos regulamentos), com nenhuma punição durante a incorporação e até uma Menção Honrosa na baixa do serviço.
Saí cabo apto a promoção a terceiro sargento, se convocado (no interregno de cinco anos, durante o tempo de reservista - reserva disponível das Forças Armadas para convocação, se necessário).
Sim, isso significa ter sido um bom militar, um militar exemplar. Sei que fui. Esta consciência tenho, até pelos reconhecimentos recebidos.
O arrependimento de não ter engajado, como me foi oferecido várias vezes antes da baixa, continua comigo. O tenente Flores, meu comandante de Companhia, insistiu várias vezes, garantindo me mandar pra ESA - Escola de Sargento das Armas, para prosseguir na carreira com rapidez. Como disse, Cabo eu já era. Um dos meus erros da vida.
Mas hoje, sigo as regras de milico em muitas ações diárias, em casa e fora dela.
Companhia, sentido! Em frente, MARCHE!
Esta é a foto da Primeira Companhia de Fuzileiros do 14º Batalhão de Caçadores, hoje 63º Batalhão de Infantaria, em Florianópolis. Foto derradeira, ainda com farda, antes da baixa, para a historia da unidade. Está lá. Eu sou o quinto da esquerda para a direita, sentado. Há um detalhe mais fácil de identificação: sou o único sorrindo de toda a tropa. Esse detalhe me foi lembrado - e nestas décadas todas nem eu percebi - pelo advogado meu amigo de Florianópolis, Everton Balsimelli Staub. Olho cada um e os identifico quase todos de memória. Muitos já se foram. E deixaram-me imensas saudades.
Este é o Quartel. O prédio da frente, à esquerda, é a Primeira Companhia. O da frente é o comando. O da direita é a Segunda Companhia, atrás dela, a CPP - Companhia de Petrechos Pesados e atrás da Primeira, a CCS - Companhia de Comando e Serviços. Lá atrás, no meio, o prédio do rancho, onde os bandeijões cheios de picadinho nos alimentavam. Foto recente (seis anos atrás). A área posterior, até a barreira desmatada, era do quartel, na minha época. Ali funcionava o stand de tiro. Fui bom nisso também, aqui modestamente, pois minha qualificação geral era burocrata e qualificação pessoal, datilógrafo. Mas os exercícios com armas eram obrigatórios para todos - afinal, era infantaria, a rainha das armas. 











Po Aderbal, hoje tua coluna me deixou com lágrimas nos olhos. Lembranças iguais as suas, servi ali tbem, na Cia de apoio, antiga CPP. Como você, tbem me arrependo de não ter seguido, tbem sai cabo, apto a promoção, não segui, por insistencia do pai,(naquela época se respeitava a opinião dos pais), mas considero uma das melhores épocas da minha vida. O Exército, naquela época, era motivo de orgulho. 0 14 BC, hoje 63 BI, ajudou e muito na minha formação, como homem e cidadão, com principalmente, o sentimento de patriotismo, coisa que quase não vemos hoje em dia. A Rainha das Armas deixou muitas lembranças boas.
Abs
Cesar A. Borges
878
Cia Apoio
Classe 59