top of page

Os complexos que nos afetam, mas não nos param na vida

Esta é uma história pessoal. Muito subjetiva. Pode não agradar a muitos. Ou até incomodar.



Sim, o tempo bloqueou alguns caminhos meus, como o de completar estudos. Isso não serve de desculpa pra nada, valendo a principal: o enfrentamento precoce da luta pela vida, ante a perda do pai aos 15 anos. Assim foi comigo.


A vida, pródiga em generosidades, no entanto, cedeu-me o direito a reconhecimentos, posso dizer, consagradores, permitindo-me uma vida apertada, mas viável sempre. Principalmente no exercício do jornalismo e do rádio. Registrado em 1969 como jornalista provisionado, ante o Decreto 969 do governo militar, depois profissionalizado em 1987 por outro decreto presidencial e registrado como radialista no Ministério do Trabalho em 1981, com ambos os registros absolutamente em dia, exerci a profissão do jeito que deu, chegando a cargos importantes na imprensa, principalmente em televisão, onde exerci por bom tempo a coordenação de jornalismo da RCE, rede estadual filiada à Bandeirantes. Depois, fui Secretário de Imprensa da prefeitura de Jaraguá do Sul. O detalhe disso tudo é a ausência de um diploma de curso superior, autodidata que sou. Nada impediu. Até porque, tempos depois, o diploma passou a não ser mais exigível para a prática da profissão, como ainda o é hoje, ante discordâncias e polêmicas a respeito. Para confirmar a legitimidade, fui até da diretoria do Sindicato dos Jornalistas de SC por algum tempo, a convite de colegas. Saí por me sentir desconfortável com as discussões excessivamente ideológicas das reuniões.


Passei por vários cargos, fiz uma renda padrão boa, não excelente, mas boa - possível de sobreviver no limite, mas bem. Aposentei em 2001. Minha mulher também, bem depois. E assim temos uma renda fixa mensal garantidíssima. O resto das necessidades são cobertas por trabalho, ainda. Sem necessidade de comprovar nada para mostrar quem sou e o que sei. Hoje superbem na Rádio Câmara BC, contratado pela Rockset Produções, a empresa responsável pelo jornalismo oficial por lá. Onde vivo e convivo maravilhosamente bem com colegas e com o trabalho. Fazendo tudo do jeito que sei. E até agradando, vejam só.


Mas, mesmo assim, sempre senti um complexo ferrado por não ter curso sequer secundário, ou médio. Nem precisava dele, como não preciso ainda, mas me sentia meio esquisito quando, ao preencher fichas ou cadastros em qualquer lugar perguntavam: "Qual seu grau de instrução?" E eu ali, meio constrangido. Algumas vezes dizia, só pra ver: "Superior". E as pessoas nunca questionaram ou pediram comprovações, mas eu desmentia em seguida. E elas ficavam me olhando, de olhos esbugalhados. Ficava nisso. Isto não teria, como nenhum caso teve, influência qualquer nas relações de serviço ou comerciais. Mas me incomodava. Então, em 2018, resolvi encarar o Encceja. Olhei o programa, dei uma passada rápida e me atirei pra Itajaí pra submeter-me. Imaginei eliminar algumas matérias, por ser infenso a matemática e ciências exatas em geral, e depois estudar a matar o resto noutras oportunidades. Surpresa: matei de primeira e recebi meu diploma de curso médio. Está comigo. Depois foi útil, até: resolvi, só para treinar minhas habilidades, pelo curso de corretor de imóveis (que exigia nível médio). Fiz e também aprovei. Registro no CRECI 41059-SC, pessoa física (F). O Encceja é maravilhoso para sedimentar vidas (e tirar complexos, claro). Sou defensor incondicional.


E então o Índio (Leandro Índio da Silva), amigo de muitos tempos e sempre atencioso comigo, um dos criadores do curso de Administração Pública da UDESC em BC, me desafiou: "Já que você matou o ensino médio, por que não faz vestibular?". Embora eu negando por saber desnecessário nesta altura da vida, ele insistiu: "Eu pago tua inscrição". Pagou. Fiz e fui aprovado. Outra glória pessoal interna. Passar num vestibular sem estudar nada e fora de uma escola convencional há mais de 60 anos...


Mas desisti meses depois, pressionado por conhecimentos necessários que eu não tinha, por dependência de base do ensino médio regular: justamente Ciências Exatas. Deixei meu lugar pra outros. Não me arrependo, pois apenas mostrei, modestamente, um pouquinho de resiliência. Se é que se pode chamar assim.



 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
LogomarcaMin2cm.jpg

Siga nas Redes Sociais

  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

© 2020 | Aderbal Machado

bottom of page