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Os versos que te dou nas pedras do caminho e no mar português

Outra semana começando, já inverno, tempo bom e balançando na inconstância, sol e chuva (“casamento de viúva”), chuva e sol (“casamento de caracol”). Dependendo da região, claro. Aqui na borda norte do estado, o vento sopra de leve a favor. Solzinho simpático pairando sobre as paisagens, enfiando-se por entre a selva de pedras e beijando os cumes e as planícies. Dá vontade de poetar, inspirando-se nos versejares de Fernando Pessoa, JG de Araújo Jorge, Drummond.

Drummond disse, na sua mais famosa obra:


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.


JG de Araújo Jorge arrasou assim:


Ouve estes versos que te dou, eu

os fiz hoje que sinto o coração contente

enquanto teu amor for meu somente,

eu farei versos...e serei feliz...


E hei de fazê-los pela vida afora,

versos de sonho e de amor, e hei depois

relembrar o passado de nós dois...

esse passado que começa agora...


Estes versos repletos de ternura são

versos meus, mas que são teus, também...

Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que

possa perturbar vossa ventura...


Quando o tempo branquear os teus cabelos

hás de um dia mais tarde, revivê-los nas

lembranças que a vida não desfez...


E ao lê-los...com saudade em tua dor...

hás de rever, chorando, o nosso amor,

hás de lembrar, também, de quem os fez...


Se nesse tempo eu já tiver partido e

outros versos quiseres, teu pedido deixa

ao lado da cruz para onde eu vou...


Quando lá novamente, então tu fores,

pode colher do chão todas as flores, pois

são os versos de amor que ainda te dou.


(Do livro "Meu Céu Interior" – 1934)


Fernando Pessoa, no poema de onde se extraiu a sua mensagem mais famosa:


Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.


Sabe aquela segunda de inspiração quase zero e pouca vontade de elaborar textos? É hoje. Mas acho, e tenho convicção de terem vocês também achado isso: valeu a pena não ler minhas chatices corriqueiras e ler sobre gente tão exímia da literatura poética mundial e brasileira.


Apelo à vossa bondade para compreender-me.


(ESTA CRÔNICA FOI PUBLICADA ORIGINALMENTE NO BLOG ADERBAL MACHADO DO PORTAL 4oito DE CRICIÚMA)

 
 
 

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