A indomável e autêntica Brigitte Bardot num texto épico
- Aderbal Machado

- 28 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Brigitte Bardot foi um terremoto cultural. Um daqueles fenômenos que não cabem numa filmografia, numa estética ou numa ideologia. Ela não “representava” uma época — ela desorganizava qualquer época.
Nos anos 1950 e 60, Bardot reinventou a imagem da mulher no cinema europeu. Livre, sensual, indomável, sem culpa e sem manual de instruções. Antes dela, o desejo feminino precisava ser domesticado. Depois dela, passou a existir sem pedir desculpas. E isso, é claro, sempre incomodou muita gente.
Seu rosto virou símbolo. Seu corpo, manifesto. Seu nome, sinônimo de um tipo de liberdade que não se explica em panfleto — apenas se vive. E então veio “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard. Um filme que, ironicamente, a crítica tentou reduzir a um ensaio intelectual, quando na verdade é um retrato cruel da incomunicabilidade, do esgotamento emocional e do vazio elegante da modernidade. Bardot está ali em estado bruto, minimalista, devastadora e nua, porém não para seduzir, mas para confrontar.
Godard a filmou como quem sabe que está diante de um mito — mas de um mito que pensa, sofre e se entedia. E isso é muito mais perigoso do que simplesmente ser bonita.
Fora das telas, Bardot circulava entre músicos, escritores, poetas e provocadores. Serge Gainsbourg foi um deles. A famosa “Je t’aime… moi non plus” (que você deve conhecer com hino dos motéis) foi escrita para Bardot, gravou com o cantor, mas depois pediu que não fosse lançada, por razões pessoais, já que era casada na época.
Gainsbourg, então, regravou a música com Jane Birkin, em 1969 — e essa versão se tornou o escândalo mundial que entrou para a história. Assim como entrou para o imaginário coletivo o ménage à trois mais invejado do cinema, reunindo Birkin e Bardot em Don Juan 1973, filme que eternizou essa sobreposição mítica de musas em torno do poeta maldito.
Esse imaginário, inclusive, acabou respingando e inspirando meu livro "Sexo, Cinema & Dois Corpos Fumegantes" e na minha própria canção "Drive-In" quando canto: "poeta Gainsbourg eu sou, Birkin e Bardot…”
Como quase sempre acontece, Bardot foi a centelha — não o incêndio. E isso combina perfeitamente com ela.
Depois, Bardot saiu de cena. Abandonou o cinema ainda jovem — outro pecado capital num mundo que exige que mulheres permaneçam disponíveis, belas e silenciosas até o último close. Em vez disso, escolheu o ativismo, sobretudo a defesa dos animais. E foi aí que começou o verdadeiro escândalo.
Porque para muitos, Brigitte Bardot envelheceu fora do "enquadramento correto", onde artistas repetem o discurso esperado, assinam o abaixo-assinado certo e erram apenas do lado “permitido”. A musa fez o oposto: falou o que pensava. Sem pedir licença. Sem suavizar. Sem pedir desculpas.
Discordou da esquerda cultural. Criticou dogmas. Tocou em temas proibidos. Resultado? Cancelamento. Sim, a atriz morreu "cancelada" aos 91 anos, por fazer críticas à imigração desenfreada promovida na França.
Curiosamente, outros artistas — desde que alinhados ao espectro político correto — podem dizer absurdos monumentais e seguem sendo ovacionados. Basta lembrar de declarações públicas de figuras como Jane Fonda, que atravessa décadas dizendo as maiores tolices com o selo de aprovação garantido. Bardot, não. Bardot pagou o preço.
Não pediu desculpas performáticas. Não publicou notas escritas por assessores. Não fingiu arrependimento estratégico. Sustentou o que disse — como fazem pessoas que entendem que liberdade não é um prêmio concedido pelo aplauso. E talvez por isso sua frase mais citada (que deveria ser seu epitáfio) seja também a mais honesta:
“Prefiro ser odiada por dizer o que penso do que amada por mentir.”
No fim das contas, Bardot não foi cancelada por envelhecer mal, por errar ou por falar demais. Foi cancelada por não se ajoelhar.
E, sinceramente, entre um mundo cheio de Bardots imperfeitas, livres e indomáveis, e outro repleto de artistas domesticados, hipócritas e previsíveis, como Jane Fonda,
eu prefiro o primeiro. Sou parte dele.
Porque a arte que me interessa ainda arranha, incomoda e se recusa a pedir desculpas por não seguir a cartilha dos "vencedores".
Vá em paz, Brigitte Bardot.







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