• Aderbal Machado

Sem ilusões, Moisés e Messias entregam os anéis pra não perder os dedos


Em primeiro lugar, muito esquisita a nova plataforma político-administrativa do governador Carlos Moisés se "entregando pra Jesus", como diz a gíria popularesca, ao integrar-se aos gestores das velhas políticas, inclusive muitos dos que votaram pelo seu impeachment. Quer dizer, nem tão esquisita assim, pra ser sincero: ele apenas conciliou o possível para não sofrer novas retaliações. Conspurcou sua pregação de campanha e intenções evidenciadas de início do governo, é verdade, mas se não fizer isso, assina o atestado de óbito do governo.

O mesmo ocorreu com Bolsonaro. Para saber princípios disso, na minha opinião, releiam minha crônica anterior. Em Brasília é um jogo ainda mais pesado, pois envolve uma montoeira de partidos, egos individuais fortes, interesses múltiplos de regiões geográficas, estados e corporações - são 513 na Câmara e 81 no Senado a serem afagados, com suas extensões sabidas por trás e pelos lados. Isso resultarará, como já está resultando, em cessões de espaços dentro do governo. E por mais que Bolsonaro tente ser razoável, não conseguirá. Terá que continuar cedendo ou a vaca vai pro brejo de novo. O Centrão é terrível.

Tanto quanto o Moisés, o Messias entregou os anéis para não perder os dedos. É politicamente bíblico, desde os personagens até os atos. Seria ingenuidade - e parece que cometeram este pecado mortal no início - imaginar que iriam flanar tranquilamente sem serem atropelados pela triste realidade.

De qualquer forma, imaginemos que, apesar dessas distorções do que se disse e o que se faz, SC e o Brasil ficarão melhor, em paz e os objetivos principais - como as necessárias reformas tributária e fiscal e a definição de prioridades orçamentárias - sejam buscados e, finalmente, alcançados. Não é muito desejar isso - é o minimo. Embora a gente sempre fique com um pé atrás ante essa turma de malucos alojados nas cadeiras legislativas e executivas.

Há um detalhe a ser apreciado no caso de Bolsonaro: diziam-no frágil e acuado. Minimizaram o quanto puderam sua capacidade de reação e de negociar. Ele demonstrou o contrário e fez barba, bigode e cabelo da oposição. Em política, está demonstrado a cada dia, o maior pecado é perder. Moisés passou até por um vigoroso estresse com os episódios do impeachment, com suas nuanças pecaminosas ainda no horizonte, mas já esmaecidas: os R$ 33 milhões dos respiradores sumiram de vez. Sem ninguém para pagar pelo sumiço.

Como estamos no Brasil, pouco se pode garantir de que este cenário perdurará do jeito que está. Em todo caso, houve uma ruptura de conceitos apreciável e ninguém poderá negar. Com reflexos indubitáveis em 2022.

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