• Aderbal Machado

Saúde hospitalar em Balneário Camboriú e Amfri: uma discussão antiga e relegada

Atualizado: 28 de Ago de 2020

As discussões certas no momento errado. Embora o direcionamento, teoricamente, esteja correto. A questão é: crer ou não crer.


Na decisão de se dar vida ao Hospital Santa Inês a fim de se fortalecer a estrutura de combate à pandemia, chega-se a uma conclusão e a uma decisão, ainda no verdejar dos apontamentos iniciais: torná-lo perene.

Nos debates havidos na Assembleia, o secretário da Saúde do Estado, André Motta Ribeiro, afirmou ser ideia reativar o Santa Inês como boa alternativa para aumentar o que chamou de “robustez do atendimento hospitalar” da região. E concluiu que, com a esperada adesão do Hospital Municipal Ruth Cardoso à política hospitalar catarinense – habilitando-o a receber recursos do Estado –, o Santa Inês poderia servir de apoio tanto à unidade quanto ao Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí.


“O Hospital Santa Inês está no escopo, mas é preciso definir a forma de fazer”, afirmou o secretário. “Ele vem trazer robustez para a região, possibilitando que o atendimento nas unidades seja vocacionado”, completou Ribeiro.


Prestando bem atenção ao dito, constata-se o retorno de uma discussão importante, aquecida lá atrás, quando o atual prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni era presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa e a deflagrou, sem sucesso, por falta de continuidade e amparo das forças políticas da região e do Estado. Faz tempo. De lá pra cá, nada mais se disse e nem foi perguntado e os bocas-moles das nossas representações não vocalizaram nada a respeito e nem pressionaram coisa alguma. Nem localmente e nem regionalmente. Fez-se silêncio.


É auspicioso o tema retornar, mas foi preciso uma desgraça sanitária pra isso. Ou seja, outra vez correndo atrás do prejuízo, indo a reboque dos fatos.


Nestes espaços aqui, várias vezes relembramos o assunto, inclusive reverberando a opinião de eméritos especialistas, como o Dr. Celso Dellagiustina, um dos maiores especialistas em SUS e em gestão hospitalar do Brasil. Cria nossa, cuja opinião ainda é disponível a quem queira, pra conferir nossa veracidade.


Voltar o Santa Inês, contornadas as formidáveis dificuldades financeiras, legais e estruturais que envolve a sua recuperação plena, é ótimo. Contudo, ainda nos resta a eterna dúvida da seriedade do Estado em cumprir o que diz. Os precedentes são muitos neste sentido, recentes e passados.

APÓS a matéria, o Dr. Celso Dellagiustina opinou a respeito, a nosso pedido:


"A região da foz do Itajaí desde há muito apresenta graves problemas a nível hospitalar. Vale aqui relembrar que o Hospital Ruth Cardoso, quando concebido, não atendia as necessidades da saúde de BC. Muitas foram as discussões, tanto para entrar em funcionamento como a sua gestão ideal e correta.

O hospital, na época, apresentava um pronto socorro pequeno e incapaz de ser porta aberta. Éramos assessor da comissão de saúde da Alesc, sendo presidente o Dr Volnei Morastoni. Já naquela época se discutia a continuidade do Hospital Santa Inês. Elaboramos uma proposta onde o Santa Inês ficaria com atendimento das urgências e o Ruth seria um hospital porta fechada, apenas para internação encaminhada pelo Santa Inês.

Infelizmente a proposta foi rejeitada, mesmo mostrando que haveria economia ao município. Aliás, sobre isto escrevi uma carta aberta ao então prefeito Piriquito e, assim, embora algumas organizações sociais tentaram manter o hospital aberto, infelizmente foram encerradas suas atividades.

E chegamos aos dias atuais.

Em março, alertávamos que a região, já carente de leitos, especialmente de UTI, teria problemas enormes com o aumento da pandemia. Vários erros foram cometidos pelos gestores da região.

Primeiro a partir do governo federal: esqueceram que o SUS é uma tríade de gestores, municipais, federal e estadual. Uma das funções dos gestores e fixar diretrizes e objetivos, frente à pandemia.

A nível estadual também não houve planejamento e diretrizes entre estados e municípios, a começar pelo atendimento básico, bem diferente das tomadas na pademia da influenzae em 2009.

O estado, precocemente, declarou a quarentena, na época importante para se estabelecer os rumos a tomar. A polêmica do hospital de campanha em Itajaí, seus problemas e a politização de alguns gestores sobre a pandemia e os erros do Estado só atrasavam cada vez mais a organização do atendimento às necessidades de combate à epidemia.

Faltou planejamento entre gestores municipais e estadual. Ficaram à deriva. Cada prefeito tomando atitudes nem sempre as mais corretas . Se houvesse planejamento sem politização a possibilidade de abertura e adaptação do Hospital Santa Inês já seria realidade. Esta possibilidade, levantada por especialistas em abril, não foi considerada na época. Só recentemente o secretário de saúde do Estado levanta com o município a possibilidade de sua reabertura. Costumo dizer que, em saúde, além de se contar com especialistas, devemos tomar medidas planejadas e com rapidez."

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