• Aderbal Machado

Procura por bicicletas dispara na pandemia e SC se consolida como um dos principais polos do setor


Como forma de enfrentar a pandemia, muitas pessoas passaram a buscar um estilo de vida saudável, em contato com a natureza. Com o fechamento das academias de musculação e o receio de usar transporte público, a bicicleta surgiu como alternativa perfeita de lazer, exercício físico e transporte diário. Quarto maior produtor mundial de “magrelas”, o Brasil segue a tendência mundial de recordes de vendas em 2020. Segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), somente em julho foram vendidas no País 118% mais bikes do que no mesmo período em 2019, enquanto em agosto o salto foi de 93%. Números assim se repetem desde abril e movimentam a indústria de bicicletas de Santa Catarina, a segunda maior do Brasil em número de funcionários, atrás de São Paulo.

A pandemia acelerou uma tendência que vinha transformando a relação das pessoas com o veículo e moldava um novo mercado. “A bicicleta deixou de ser meramente um meio de transporte e virou um objeto de desejo, que forma grupos sociais, que pode ser competitivo, que tem uma comunidade”, afirma André Ricardo Souto Maior, fundador da Soul Cycles, de Itajaí. O empresário paulista farejou a oportunidade em 2010, quando se mudou com a esposa para Balneário Camboriú. A facilidade logística e os incentivos fiscais encontrados em Itajaí permitiram-no montar uma operação de importação de peças e montagem de bicicletas na cidade.

A empresa começou oferecendo modelos de entrada, para depois apostar no segmento de maior valor agregado. As bikes da Soul custam a partir de R$ 2,9 mil – o tíquete médio, no entanto, é de R$ 9 mil, com unidades customizadas chegando a R$ 80 mil. Segundo André Maior, um tipo de cliente comum é o que prefere continuar com um carro básico, mais barato, e investir em uma bicicleta melhor. “A pessoa pode jamais ter dinheiro para comprar um Fórmula-1, mas pode comprar uma bicicleta igual à que os profissionais de ciclismo usam para competir na Volta da França”, diz o empresário, referindo-se ao maior evento ciclístico do mundo.

A Soul Cycles tem 80 funcionários e faturou R$ 38 milhões no ano passado. Para acompanhar as tendências e avaliar componentes perto de quem os produz, conta com dois funcionários residentes em Xangai e Shenzhen, na China. As peças usadas são importadas, mas a pintura dos quadros é feita artesanalmente. A montagem não segue uma linha industrial: cada mecânico monta uma unidade do começo ao fim. “Infelizmente não temos opções de peças nacionais que nos satisfaçam. Mas trabalhamos em uma parceria internacional para, em breve, começar a produzir um componente aqui em Itajaí”, segreda Maior.

Como em todo o setor, a empresa encontra dificuldades para atender o crescimento das vendas, pois pedidos feitos com fornecedores em agosto só serão entregues em fevereiro. O problema é que a demanda repentina e exponencial e a paralisação ou diminuição na produção de componentes e peças devido aos lockdowns causaram um descompasso na cadeia logística da indústria da bicicleta.

“É um problema mundial. Até a americana Giant, uma das maiores fabricantes do mundo, está tendo dificuldades para entregar os produtos. Vamos conseguir colocar bicicletas no mercado ao longo de todo o segundo semestre e também no Natal, mas não tanto quanto poderíamos vender”, diz José Alberto dos Santos Junior, executivo responsável pela área de supply chain da Free Action/Status, de Blumenau.

PRINCIPAIS PRODUTORES Empregos diretos na fabricação de bicicletas, em 2018

São Paulo - 3,5 mil

Santa Catarina - 921

Amazonas - 888

Paraná - 689

Piauí - 522

Outros Estados - 1,5 mil

Total - 8,02 mil

(Fonte: Aliança Bike)

Em setembro, a empresa estava perto de triplicar a produção em relação ao começo de 2020 chegando a 30 mil quadros por mês, e usava a criatividade para lidar com as lacunas no fornecimento. “Abrimos mais um turno e dobramos a produção a partir do segundo semestre com apenas mais 15 contratações, criando uma segunda linha de montagem e mudando alguns métodos de trabalho. Vamos montando as bicicletas conforme os suprimentos vão chegando, mas nunca estamos ociosos, estamos sempre pensando em soluções, realocando peças para manter a meta”, explica o gerente de produção Adenor Manarin.

A Free Action/Status trabalha com três marcas simultaneamente. Além de vender as bicicletas com a estampa Mormaii, um cartão de visitas conhecido em todo o País, vende os modelos Status montados e desmontados para lojas especializadas e bicicletarias, a um custo de entrada, a partir de R$ 599. Há cerca de seis anos, a empresa viu a possibilidade de atuar em um novo segmento de mercado com os modelos Free Action, oferecendo um produto de maior valor agregado, que pode chegar à casa dos R$ 6 mil.

Quebra-cabeça | O nicho de alto valor é dos que mais crescem no País. Fundada em 2017, a EDRO Bikes, de Tubarão, oferece modelos de alta performance que começam custando R$ 18,9 mil. A pequena empresa, com dez funcionários, produz bicicletas com quadros de fibra de carbono e pintura e ajustes de tamanho personalizados. “A montagem de uma EDRO é um quebra-cabeça maluco, com peças vindas de Taiwan, Itália, Estados Unidos, Tailândia, e montadas aqui em Tubarão”, resume o fundador da marca, Eduardo Cardoso Lima. A empresa surgiu de uma insatisfação com a oferta de bicicletas de nível competitivo no País. “Sempre precisava fazer um ajuste, substituir uma peça. Aí resolvi que poderia montar meu próprio quadro”, conta o empresário, que desenvolveu uma bicicleta no estilo mountain bike hardtail (suspensão dianteira) com 8,9 quilos, uma leveza que algumas marcas de renome não alcançam. “Cuidando para ter o máximo de qualidade em cada etapa, vimos que tínhamos uma boa oportunidade. Temos acesso aos mesmos fornecedores e tecnologias, então por que não fazer bikes tão boas quanto as gringas?”, argumenta o engenheiro mecânico, que em julho vendeu mais do que em todo o ano de 2019.

DISPOSIÇÃO PARA PAGAR Valor médio das bicicletas no varejo em 2019, em R$ (% do total vendido)

Até 500 - 6%

500 a 1.000 - 15%

1.001 a 2.000 - 36%

2.001 a 3.000 - 17%

3.001 a 4.000 - 7%

4.001 a 5.000 - 7%

Mais de 5.000 - 5%

Não informado - 7%

(Fonte: Aliança Bike)

Infantis | O aquecimento do mercado também beneficia os fabricantes de modelos mais tradicionais, como a Nathor, de Blumenau, considerada a maior fábrica de bicicletas e triciclos infantis da América Latina. Com produção diária de 7 mil unidades e um parque fabril de 20 mil metros quadrados, a empresa tira vantagem do fato de produzir a maior parte das peças que utiliza. “Quando as pessoas voltaram aos poucos às atividades na Europa, vimos a procura por bicicletas alcançar marcos inéditos. Isso se refletiu no mercado brasileiro e retomamos a produção a todo vapor, readmitindo funcionários”, diz o engenheiro mecânico Antonio N. Vergos, fundador e CEO da Nathor. Vergos iniciou no ramo, aliás, produzindo peças, o que o fez notar um nicho de mercado a ser explorado. “Havia a necessidade de produtos com preços acessíveis e uma preocupação maior com a qualidade”, define. Ele investiu em tecnologia para desenvolver produtos ergonômicos e seguros, com soldas feitas por robôs e cortes a laser. “Toda a tecnologia é voltada para a experiência da criança: estudos de geometria, qualidade de processos. Queremos evitar que a criança se afaste da bicicleta por conta de más experiências”, explica Vergos.

De olho nas tendências do mercado, a empresa recentemente investiu no segmento adulto, desenvolvendo bicicletas urbanas, e lançou também uma bike de pedal assistido (bicicleta elétrica), que alcança 25 km/h e tem autonomia de 125 quilômetros.

Mesmo empresas como a Nathor e a Free Action/Status, que produzem vários componentes próprios, dependem em algum grau de peças específicas, como freios, correntes e sistemas de transmissão importados principalmente da Ásia. Por isso, o diagnóstico do setor é que o ano que vem deverá ser de continuidade das dificuldades na organização da cadeia de suprimentos, com a produção se estabilizando no elevado patamar atingido em 2020.

A representatividade catarinense na indústria de bicicletas recicla uma tradição de Santa Catarina. No século passado, Joinville era conhecida como a cidade das bicicletas, e empresas como a Tupy tinham milhares de operários ciclistas, a ponto de se observar “engarrafamentos” nos horários de troca de turno. O hábito se mantém na Tupy e em algumas fábricas, mas em menor escala. “Antigamente, 90% dos nossos trabalhadores vinham de bicicleta para o trabalho, e era notável o melhor humor, a redução de falhas e de acidentes e a disposição para trabalhar. Hoje esse número, infelizmente, caiu muito”, conta Eldon Jung, fundador da Fornos Jung, de Blumenau .

A falta de segurança no trânsito e também o receio de ser roubado são barreiras para a disseminação das bicicletas pelas cidades brasileiras. Mas o gosto crescente da população pelas bikes, exacerbado na pandemia, se reflete em esforços de cidades como Blumenau, Joinville e Florianópolis de se tornarem amigáveis às bicicletas. Ciclovias deixam de ser consideradas um inconveniente e passam a ser vistas como um elemento para a mobilidade e a qualidade de vida.


BIKES EM DESVANTAGEM

Distribuição das viagens por modo de transporte nas cidades brasileiras (2017)


A pé - 40%

Transporte coletivo - 28%

Automóvel - 25%

Motocicleta - 4%

Bicicleta - 3%

(Fonte: Associação Nacional dos Transportes Públicos/Aliança Bike)

Para os empresários do setor, falta o poder público abrir o olho para as possibilidades de desenvolvimento de uma indústria nacional mais robusta. A principal reclamação é o excesso de tributos sobre a fabricação de peças, o que torna mais competitivo trazer as partes do exterior e fazer a montagem localmente. Outra sugestão é a criação de políticas para bicicletas elétricas, pois a produção de motocicletas é muito menos tributada do que a das bikes híbridas, que funcionam tanto a bateria quanto a pedaladas.


(Site da FIESC)

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