• Aderbal Machado

O ato de dar esmola parece simples, mas tem convergências e controvérsias a considerar

Formam-se conceitos de benemerência ou consciência social, em cima da escolha: dar ou não dar esmola a pedintes nas ruas.


Confrontam-se as prefeituras, responsáveis por dispor de meios de assistência social a esta gente, com recursos de atendimento e logísticas sociais eficientes. Na esteira disso, a própria vontade dos pedintes ou moradores de rua ou moradores na rua. Ou andarilhos.


Casos de gente da cidade, com família instituída, a quem não desejam recorrer ou que não os desejam no seu regaço. Seja por uso de drogas ou vícios de bebidas lícitas. Até por incompatibilidades outras. Embora isso tudo jogue a solução ou a reparação a quem tem nas mãos a responsabilidade de implementar políticas públicas.


Essas políticas públicas até as há. Caso de Balneário Camboriú, há equipes permanentes nas ruas, diagnosticando e apresentando opções a essas pessoas. Regra geral, maioria é de outras cidades, até de outros estados. Não é incomum serem pessoas em dívida com a Justiça; até por crimes nada suaves – ou apenas foragidos. Diariamente os boletins de ocorrência da Guarda Municipal e da Polícia Militar comprovam isso com fartura.


A inconveniência do esforço inútil é consagrada quando muitas dessas pessoas desvalidas se negam a receber ajuda, a se dirigir ao local onde podem dormir, tomar banho e até se alimentar enquanto aguardam a solução: trabalhar ou retornar à sua origem. São muitos os que não querem nem uma coisa e nem outra. Ou até aceitam retornar à origem, mas retornam depois. Quanto a trabalhar, há um porém: por um salário-mínimo não vale a pena, aliado a expediente, documentação, carteira de trabalho, ritual burocrático, tarefa determinada a fazer. Sabem por quê? Pedindo nas ruas ganham bem mais e sem nenhuma dessas obrigações. Fazem seu próprio “expediente” e escolhem onde e como “trabalhar”. Sem impostos e descontos.


E sem exageros: muitos faturam muito mais do que o piso de remuneração profissional de dezenas de profissões regulamentadas, até de nível superior. Jornalistas, por exemplo, cujo piso profissional nem chega a R$ 3.000,00.


Vivi, ao longo das sete décadas e pouco de vida, episódios pitorescos com pedintes. Todos enfrentados com humanidade e sinceridade. Vou contar, tentando resumir, mas sujeito a textão.


01 – Campolino

Era o tipo do pedinte profissional, lá no Araranguá da década de 50. Papai tinha uma rotina aos sábados (dia consagrado aos pedintes, “autorizados” a pedir nas ruas): trocava dinheiro em notas de Cr$ 1,00 e ia pra frente da nossa casa, com uma cadeira e uma mesinha onde colocava as notas, amontoadas simetricamente. E, manhã cedo, lá estavam os pedintes, Campolino sempre à frente. Terminado o dinheiro, iam todos embora, satisfeitos. Campolino ficava, papai trazia uma cadeira pra ele e ficavam horas conversando e rindo. Papai, advogado, homem culto, adorava conversar com Campolino, homem simples e até simplório, mas risonho ao extremo e cheio de “causos” pra contar. Perguntei um dia a papai a razão pela qual ela tinha tanta empatia com aquele homem. E ele dizia sempre: “É um homem inteligente e muito interessante, com belas experiências de vida”.


02 – Zequinha

Outro personagem do Araranguá, mas de tempos mais adiante de Campolino. Era pedinte habitual da casa da mana Icleia. Nunca o vi pedindo, apenas: propunha sempre “picar lenha” (tempos dos fogões “econômicos”, então modernos) pra Icleia usar. E com isso ganhava o almoço e uma graninha pra seguir a vida e o dia. Zequinha era sui-generis. Também bem falante. Trabalhava muito bem no seu ofício.


03 – Desconhecido

Este eu o conheci por insistência dele, porém nunca conversamos. Costumava me esperar, pela manhã, quando eu chegava para o trabalho na Rádio Menina, nos idos de 1997. No local que ainda é hoje, porém com o prédio atual em construção. Havia tapumes na frente e um portão para entrar no terreno. O único andar ocupado era o da rádio. Recolhia lixo reciclável (já naquele tempo) e andava sempre cheirando a cachaça. Eu me horrorizava um pouco com o jeito dele, meio agressivo, de me interpelar à entrada do portão. Por algumas vezes eu não quis atendê-lo, pois tinha absoluta certeza que o dinheiro que eu desse iria para a cachaça. Mas ele insistiu tanto e tanto que, um belo dia, parei e resolvi questioná-lo: “Só dou o dinheiro se for para algo útil pra você”. Ele foi seco: “Olha, eu não tenho mãe doente, não tenho filho doente, não quero comprar pão e nem tomar café: eu quero é dinheiro pra BEBER, porra!”

Comecei a rir da sua sinceridade, meti a mão no bolso e puxei R$ 10,00. Ele se espantou: “Mas com isso eu compro umas cinco garrafas de cachaça”. E eu: “Então compre e faça a sua vontade”. Ele me agradeceu muito, riu também e foi embora. Não o vi mais.


04 – O desaforado

Em Criciúma, em 1996, morava eu numa casa próximo à prefeitura. Belo dia apareceu um pedinte no portão pedindo esmola. Minha mulher falou com ele e perguntou se era pra comer. Ele disse que sim. Então, minha mulher fez três belos sanduíches com queijo, mortadela, manteiga e os entregou a ele. Foi embora. Alguns minutos depois, ao sair pela porta da frente, vi no chão os sanduíches, jogados desde a rua. Um “protesto” marcante. Ele definiu o resto. Nunca mais apareceu. E se aparecesse, não teria nada.


05 – O engraxate

Em Jaraguá do Sul, em frente à prefeitura antiga, hoje museu, na Praça Angelo Piazera, onde trabalhei nos anos 92/96, aparecia todos os dias um menino engraxate buscando clientes. Eu era um deles. Engraxava os sapatos para ajudá-lo e estimulá-lo no seu esforço. Conversador, tinha sempre a tiracolo o jornal do dia, que lia e oferecia a seus clientes. Garoto de seus 12 anos, se tanto. Sabia muito dos fatos do dia, pela leitura do jornal. Perguntei muito sobre sua vida. Vivia sozinho, não tinha família, pagava sua hospedagem e sua própria comida. E vivia feliz. Quando saí de Jaraguá do Sul, mais tarde, relembrei esse menino. Anos depois, soube que ele cresceu, estudou, fez faculdade e se formou. Fez Direito. Hoje não sei dele, mas cheguei a obter informação mais tarde de que era um bom advogado. Ele preferiu batalhar ao invés de pedir. E conquistou seu lugar com honras máximas.


Citei apenas esses casos por economia de tempo. Houve mais, mas seria cansativo.

Enfim, isso de dar esmola tem muitas controvérsias. Não é tão simples assim, embora pareça no julgamento de tantos.



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