• Aderbal Machado

Na guerra de conquista o primeiro passo foi desarmar e fragilizar a Ucrânia (a história se repete)

A invasão da Ucrânia pela Rússia talvez venha a ser o evento mais transformador da ordem geopolítica global desde a Segunda Guerra Mundial, ou no mínimo, desde a Queda do Muro de Berlim, maior, por exemplo, que o 11 de setembro.

Do ponto de vista de Putin e de muitos russos, após a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética e o acordo nuclear da Rússia com os EUA, a Europa Ocidental e os EUA vêm expandindo sua zona de influência em direção à Rússia, através da União Europeia e da OTAN. A possibilidade de que a Ucrânia entrasse para a OTAN e, por consequência, que os EUA pudessem ter uma base militar lá representa para os russos, nas palavras do próprio Putin, o equivalente para os americanos de a Rússia montar uma base militar no México ou no Canadá, algo similar à Crise dos Mísseis, em 1962, em Cuba.

Por se sentir ameaçada e por saber que as represálias seriam limitadas, a Rússia invadiu a Ucrânia. EUA e Europa já dependiam dos fertilizantes russos para garantir a produção de alimentos. Após o acidente nuclear em Fukushima, em 2010, e a posterior decisão europeia de reduzir o uso de energia nuclear e aumentar o uso de gás natural, dependem também do gás natural russo.

Em 1994, Rússia, EUA, Ucrânia e Reino Unido assinaram o Memorando de Budapeste, garantindo que nenhuma das 3 nações usaria força contra a Ucrânia e todas respeitariam suas fronteiras. Dois anos depois, a Ucrânia entregou suas armas nucleares.

A invasão da Ucrânia, sem reação militar dos EUA e da Europa, estimulará a Rússia a expandir suas fronteiras em direção a outras antigas repúblicas soviéticas e ao leste europeu. Estes países, por sua vez, vão se convencer de que não podem contar com a proteção das potências ocidentais e que é melhor ceder aos russos ou ter sua própria proteção nuclear.

Para piorar, a emergência econômica chinesa incomodou os EUA, que reagiram, estimulando a China a se aproximar da Rússia. No conflito na Ucrânia, a China já apoiou a Rússia e acusou os EUA de adotarem uma postura “imoral e irresponsável”.

Juntos, China e Rússia têm o maior arsenal nuclear e capacidade de cyber ataque (Rússia) e a maior ou 2ª maior força econômica e tecnológica e o maior exército do mundo (China). China e Rússia têm em comum regimes políticos totalitários. Além disso, a China vê a presença ocidental em Taiwan - que para os chineses é parte da China - e em Hong Kong como uma ameaça similar à que os russos veem na Ucrânia. Não será surpresa se, em breve, a China endurecer o jogo com Taiwan e/ou Hong Kong.

Além disso, a China também tem uma relação conturbada com a Coreia do Sul e o Japão, que abriu mão de ter Forças Armadas, após a Segunda Guerra, confiando na proteção americana.

Em resumo, abriu-se uma Caixa de Pandora que poderá marcar o início de uma nova era de conflitos significativos entre as potências democráticas ocidentais e as potências totalitárias orientais, com enormes impactos geopolíticos, econômicos e financeiros.

(De Ricardo Amorim)

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