Manoel Martins, radialista raiz dos bons tempos, foi embora num domingo


Leia, em publicação do Portal Making Of, dirigido por Cleiton Selistre, sobre a morte, neste domingo, do radialista Manoel de Oliveire Martins, de Imbituba. O resumo da biografia de Manoel Martins está AQUI, contada na matéria do portal.


No meio radiofônico "das antigas", a história de Manoel Martins é rica e marcante. Tive com ele uma relação estranha, embora, na época, já nos conhecessemos de "ouvir dizer", porque ele tinha, com os manos César, Aryovaldo e Agilmar, relações de amizade pessoal e profissional - eis que todos jornalistas e radialistas de intensa atividade naqueles bons tempos (décadas de 50/60).


Em 1964, Manoel Martins foi preso como "subversivo" (meu Deus, quem conheceu Manoel ficaria espantado com a acusação e o que inventaram a respeito dele!) com outros onze amigos. Eram os anunciados "Grupos de Onze" de Brizola, decantados pelos milicos.


E eu, cabo do Exército e integrando o pelotão designado para guarnecer Imbituba e conduzir, através do Capitão Carlos Augusto Caminha (depois secretário da Educação de SC no governo Colombo Salles e, finalmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado) o IPM instaurado, justamente para apurar o envolvimento dos integrantes do tal "Grupo de Onze". Vou ao final antes de comentar outros detalhes: o relatório final do Capitão Caminha inocentou todos eles, inclusive Manoel, por absoluta inconsistência das acusações e falta de qualquer tipo de relação deles em atividades contra o regime militar. Nada. Zero. Assim também com presos políticos de Laguna, para onde fomos logo em seguida: lá também o relatório de Caminha inocentou a todos.


Em Laguna, havia outro radialista preso, Valmor Silva, de Tubarão, igualmente contemporâneo dos manos Agilmar e César na Rádio Tubá e meu amigo.


Lembro bem que, como militar e, eventualmente, "carcereiro" de Manoel e de Valmor, cruzávamos as horas em longas conversas e histórias, sem nada que manchasse nossa amizade, embora alguns militares tivessem reservas quanto a intimidades com os presos. Entretanto, apesar de me advertirem, nunca dei bola pra isso. O sentimento superou tudo. Até porque sabia de suas personalidades e convicções.


Manoel Martins, inclusive, logo que assumimos o comando da prisão em Imbituba, chegou a ter uma crise de nervos, atemorizado com nossa presença e, certamente, sob o peso da injustiça de sua prisão. Depois descobrimos que eles estavam trancados numa sala sem aberturas, a não ser uma basculante do banheiro e a porta da frente que só abria para se entrar com comida. Estavam ali há dias, descobrimos depois. E o Capitão Caminha, sensibilizado pelo sofrimento e até pela condição sanitária horrorosa, mandou-os sair e tomar sol. E pediu para que familiares trouxessem roupas limpas.


Mas e daí? Estavam sujos de tanto tempo sem tomar banho (uns 15 dias, imaginamos). Caminha, então, entrou em contato com o Imbituba Futebol Clube e pediu os banheiros do estádio emprestados e para lá os mandou tomar banho. Trocaram de roupa e havia uma felicidade e um alívio grande em todos eles. Mas não parou ai: Caminha ainda lhes permitiu passar um final de semana com a família, mas advertiu: quero todos aqui na segunda cedinho. E assim foi.


A prisão improvisada era um prédio em construção, sede de um sindicato local, com apenas a parte de baixo concluída (a prisão) e a parte de cima ainda sem piso, que virou o nosso alojamento, dormindo no cimento com a mochila como travesseiro. E dormíamos.


Sabendo agora da morte de Manoel Martins, rendo-lhe homenagens. Incrível que, depois de 1964, nunca mais nos encontramos, embora eu sempre soubesse dele e ele de mim, tal nossa trajetória simultânea no rádio e na imprensa no sul do Estado.


Foi um injustiçado na época dos militares, graças a uma "denúncia vazia" de um dedo-duro, o que, depois, os relatórios de Caminha constataram e registraram com clareza. E os inocentaram liminarmente. O IPM morreu ali, convalidado pela Região Militar.


Com a morte de Manoel Martins, vai embora grande parte da história do rádio de Imbituba e sul. Mas fica a memória indelével de sua vida.

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