• Aderbal Machado

Hospital Ruth Cardoso: a surdez dos políticos é o mal principal


A insuficiência hospitalar de emergência e de urgência e até de leito é uma realidade nossa de todos os dias desde sempre. Nas especialidades médicas mais sofisticadas e nos exames mais complexos, idem.

Em Balneário Camboriú temos um fenômeno específico: o Hospital Municipal Ruth Cardoso. Está lá, fazendo das tripas coração para dar conta do recado, como é de sua missão e das equipes que o integram. Diga-se, valorosas, ante as barreiras existentes.

É ele, como foi o Santa Inês, um alvo permanente de críticas de atendimento, em geral repercutidos na mídia com ênfase.

É bom, quanto a isso, relembrar o histórico do hospital.

Há mais de 11 anos, foi concebido por uma instituição, a WFO, e ofertado à cidade, num padrão existente em várias cidades, invariavelmente fracassados nas suas finalidades plenas, como o de Biguaçu. Sua concepção é inapropriada para uma cidade como Balneário Camboriú. Nem deveria ter sido construído - melhor seria, à época, sanear o Santa Inês e assumi-lo, em parceria com o proprietário.

Primeiro erro. O segundo erro foi abri-lo, sabendo-se, por absoluta falta de uma projeção a ser realizada por técnico da área, que não funcionaria. Porque municipal e porque porta aberta ou 100% SUS. O argumento de então sonhava com a participação de Estado e municípios vizinhos na sua manutenção. Ledo e infeliz engano. Imperdoável, pois isso esteve sempre muito à vista: se os municípios não cuidavam e até agora não cuidam dos seus próprios hospitais, por que municiariam de dinheiro o Ruth Cardoso, se mais fácil é usufruir da sua condição de 100% SUS e deixar tudo à conta de Balneário Camboriú?

Nestes mais de 11 anos a estrutura continua igual e os embaraços também.

Ademais, note-se: melhor mesmo que municípios vizinhos não ajudem, pois se o fizessem na plenitude (e os valores não seriam satisfatórios nunca), a todo momento, sob alegação qualquer, poderiam parar de fazê-lo e ficaria por isso mesmo. Enquanto isso, Balneário Camboriú continuaria na obrigação de atender, como é hoje.

Ademais, note-se: melhor mesmo que municípios vizinhos não ajudem, pois se o fizerem na plenitude (e os valores não seriam satisfatórios nunca), a qualquer momento, sob alegação qualquer, poderiam parar de fazê-lo e ficaria por isso mesmo. Enquanto isso, Balneário Camboriú continuaria na obrigação de atender, como é hoje. a Justiça, mediante ação do MP, resolveu obrigar o atendimento, bloqueando valores do Estado e dos municípios para ajudar o hospital. Ao que parece isto não está sendo cumprido como deve e a conta continua dilapidando o orçamento da cidade.

Na época, em debate aberto na imprensa, pedi a opinião de um dos maiores e melhores especialistas em SUS e gestão hospitalar do Brasil, o dr. Celso Luiz Dellagiustina. O que disse sobre o Ruth Cardoso:

Tivemos a oportunidade de acompanhar o nascedouro deste hospital e como tal verificar que ele apresentava uma série de erros tecnológicos a ponto de desaconselharmos o então prefeito Rubens Spernau a não construí-lo, por várias razões:

a) O hospital não apresentava o perfil epidemiológico necessário para atender as necessidades de média e alta complexidade da cidade e da região. O hospital foi projetado para resolução de problemas de baixa complexidade. b) O projeto do hospital não contemplava um pronto socorro que pudesse atender a demanda da população e muito menos de equipamentos para diagnósticos de patologias de maior complexidade. c) Apresentava apenas duas salas cirúrgicas e uma terceira para pequenas cirurgias, o que é considerado muito aquém das necessidades de uma região de 200.0000 habitantes. d) Não apresentava Unidade transfusional (de Sangue) e) Vários outros erros estruturais em desacordo com a RDC 50 da Anvisa, que resultaria na dificuldade de se conseguir o alvará sanitário.

Mesmo com estes erros maiores, decidiu-se pela construção do projeto inicial. Tentamos durante a construção, junto com o arquitetos da região, fazer as correções necessárias, mas não conseguimos. Parecia que a Dra. Daysi (WFO) mantinha sua posição inicial, ela que não detinha nenhuma experiência como gestora da saúde e de conhecimentos do SUS. Depois de pronto (da maneira original) fomos contrários à abertura do hospital como porta geral de entrada. Fomos da opinião que ele poderia assumir só parte das necessidades da cidade, especialmente o setor Materno Infantil, e que fosse um Hospital de portas fechadas, servindo como suporte para os hospitais maiores da região (HMKB e Hospital Santa Inês). Apresentamos um projeto através do então Deputado Volnei Morastoni ao Prefeito Edson Dias do fluxo deste funcionamento e que isto representaria 600 mil reais de despesas a menos por mês ao município. Também não foi aceito. Durante estes oito anos de mandato a maior reivindicação era a regionalização do hospital e sua passagem para o Governo Estadual. Seu hospital gêmeo em Biguaçú com os mesmos defeitos foi regionalizado, recebe verbas federais e estaduais, é porta fechada e mesmo assim, embora inaugurado e conduzido por uma Organização Social, não consegue dar atendimento à população. A experiência de comando do Hospital Ruth Cardoso com organização social já foi desastrosa no seu início e não se apresenta como uma boa solução. Insistir nesta fórmula de administração seria o mais correto? Ou poder-se-ia pensar em outras formas de administração: Fundações Públicas de direito Privado? Associações sem fins lucrativos sob regime de Comodato (a exemplo do HMKB, hospital regional do Oeste, entre outros?) Como vencer as barreiras que levem a uma maior eficiência do hospital? E volto a insistir na Gestão de Saúde que se dedique a uma boa atenção básica com resolução de 70%. Uma reestruturação da gestão hospitalar com participação da sociedade civil organizada também me parece um das soluções. O problema do HMRC é crônico. Precisam os políticos e gestores de Saúde sentar-se e, independente de posições e aproveitamentos para fins de trampolim políticos e de partidos, acharem soluções de gestão que possam melhorar o funcionamento da Saúde em Balneário Camboriú.

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Com isso, nota-se, a principal doença de muitos de nossos políticos, dentre tantas, é a surdez ao bom senso.

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