• Aderbal Machado

Covid derrubou credibilidade de autoridades e instigou desobediência civil contra medidas sanitárias


É quase agônico tentar entender os fluxos e refluxos das medidas contra Covid-19. Mudam-se as regras como se muda de camisa. Todo dia algo diferente e, não raro, contraditório. O que poderia, passa a não poder. O que não poderia, passa a poder. Os alardes de base científica vão se perdendo. Mesmo quando os executivos erram, decisões judiciais, igualmente sem base científica, se perdem igual.


Os administradores, dependendo do humor do dia, das visões político-ideológicas, das pressões sociais, alteram tudo. Assim foi em Búzios, assim foi em Manaus, assim é aqui, com a permissão de ocupação de 100% dos hotéis nas regiões turísticas, mesmo ante o nível gravíssimo. A justificativa até é razoável: exige-se a adoção de medidas protetivas, as conhecidas de todos. Bloquear isto (assim se baseou a decisão) seria abrir caminho à clandestinidade, aí sim longe da fiscalização possível ou fácil.


Nisso tudo, porém, ressalta um fato inquestionável: a população, sob riscos ou não, se revolta contra meros fechamentos e proibições sem qualquer explicação maior - só a vontade do gestor público. Dizem - com a intenção que todos nós sabemos - que " a culpa é do Bolsonaro", que prega contra essas medidas de lockdown e uso de máscara indiscriminadamente e influencia a população. Coitado do presidente. Tanto prestígio para induzir a população a não se tratar contra um vírus e nem conseguiu eleger seus preferidos na eleição. Tem um empecilho nesta tese.


E então vem a pergunta natural: considerando este ponto de vista contra o Bolsonaro, influenceria ele mais do que os péssimos exemplos vindos da hipocrisia de Doria (fechou tudo em SP e foi pra Miami com a família - e depois pediu desculpas) ou do blogueiro Felipe Neto (pregou o "fique em casa" ostensivamente e foi flagrado se enturmando com seu pessoal numa alegre pelada de futebol - e depois pediu desculpas). Ou mesmo Neymar, que deveria dar um bom exemplo pela sua notoriedade, promove uma semana de aglomeração numa casa alugada em Mangaratiba, com 150 pessoas segundo seu pessoal ou com 500 segundo algumas informações não confirmadas. Bolsonaro, cá pra nós, é o que é desde sempre.


Ou, como registram vários flagrantes na Internet, outros artistas e famosos, falsos moralistas, preconizando confinamento e saindo por aí, sem máscara e aglomerando em festinhas familiares ou sociais.


Resumindo, a dissolução da obediência é uma realidade. A desobediência vem com força. Resultado de muita medida errada, precipitada, danosa, sem fundamento e sem base alguma. E com danos irreversíveis na economia. Tipo assim: cumpridas as medidas de distanciamento, máscara e álcool em gel, ficou difícil entender proibir pessoas sem máscaras ao ar livre, longe de tudo e de todos. Ou como as presenças de pessoas nas chamadas "atividades essenciais" - como farmácias e supermercados, com as devidas proteções sanitárias, não são tão visadas quanto a frequência a comércio, por exemplo. No momento em que, lá no início, fecharam tudo, até se justificava, considerados os objetivos de "dar tempo" de estruturar o sistema de saúde para atendimentos emergenciais. Passou o tempo e estamos praticamente na estaca zero. Ou até em pior situação. Sem contar, claro, as roubalheiras ocorridas neste traçado histórico - e ainda insolucionadas.

Essas incongruências e fatos causaram o estupor atual. Inegável considerar que, literalmente, essa confução de determinações, umas corretas e outras inconsequentes, encheram o saco. Deu nisso.

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