• Aderbal Machado

Candidato que fui, analiso uma derrota e a inexorável consequência do voto

Humildade na vitória e dignidade na derrota. Licenciosidade filosófica e poética a quem se envolve com candidatura em política. Até reais como comportamento e inevitáveis, ante o inexorável das duas situações. No primeiro caso, deixar os deslumbramentos de lado e ir adiante com o cumprimento das metas e compromissos - ou promessas - assumidos ao longo da campanha, sempre uma incógnita, pois raros são aqueles cumpridores à risca, tantas são as variantes colocadas em meio à senda percorrida no curso de um mandato. As tentações são demasiadas, mais ainda a quem sente o sabor do poder e gosta. E então quer a perenidade. O exemplo disso são os desvãos de mandatos iniciadas com um primado e encerrado com outro, completamente diverso - até antagônico e, por óbvio, conflitante. Viu-se muito disso em todos os lugares e aqui mesmo em Criciúma. Pior ainda, muitos se elegeram. Ou seja: o eleitor pouca importância dá a isso na hora de sua escolha.

Refiro, por junção natural dos fatos, à minha situação particular. Candidato a vereador em Balneário Camboriú, fiquei na estrada, com meros 91 votos. Nem muitos amigos chegados, apesar das promessas de mãos entrelaçadas, confirmaram o voto. Em compensação, gente que nunca vi na vida e nem relação alguma tinha comigo, confessou que votou - sem haver esta necessidade. Nem falo em traição ou coisa parecida, mesmo porque isso é frescura em demasia. Vivemos momentos de enfrentamento de realidades muito díspares, em que os interesses das comunidades se chocam com os interesses individuais. E estes últimos acabam prevalecendo.

Apresentei propostas factíveis, lógicas, naturais e acreditei e acredito nelas e - inobstante ter sido derrotado - usarei a modesta força midiática e jornalística que possuo para lutar por elas. Vou fazê-lo. Perder pode ter tservido de lição, despertando em mim fome de ação, abandonando uma sempre contida forma de atuar profissionalmente, cuidando para não confrontar pesadamente nada e nem ninguém. Pois, guardadas proporções, situações e objetivos ideais e verdadeiros, irei para o confronto de bom sentido tentando idealizá-las, sem machucar, mas também sem tréguas. A chama pegou-me em cheio.

Foi, digamos, uma experiência instigante que, dentre outras coisas, mostrou-me que ter potencial nas mídias sociais, isoladamente vale bosta nenhuma, se me permitem o inadequado palavrão.

Outras intercorrências muito conhecidas em política, às quais dediquei pouca atenção, interferiram: falta de dinheiro para pagar cabos eleitorais, para promover-se a granel, para produzir materiais com fartura. Considere-se, claro e finalmente, o fato de que o eleitor, em verdade - e isto é apenas uma constatação lógica - prefere votar no mais próximo, naquele da mesa do boteco, do cafezinho nas horas dispersas, no que o abraça todos os dias todo o tempo, no que garante a vaga do apadrinhado no serviço público. E sem um potencial de votos de arrancada - ou um núcleo eleitoral próprio -, buscar votos no varejo não é fácil.


O grande líder Diomício Freitas Uma curiosidade: em 1972, fui candidato a vereador em Criciúma, pela antiga Arena, apoiado pelo grande líder Diomício Freitas e obtive, então, 472 votos, ficando na terceira suplência. Os votos saíram dos empregados da Cecrisa, núcleo destinado a mim por seu Diomício, diretamente. Ele cumpriu rigorosamente o compromisso, mas eu, na época, não tinha a menor vontade de concorrer e nem saí de casa, efetivamente, para fazer campanha. Devo ter frustrado o saudoso velho líder, que era um monstro sagrado da política sulina, líder inconteste e que nunca foi igualado na região. Ninguém chegou próximo, até hoje.

Em Balneário Camboriú, recebi o convite à candidatura e o apoio decidido e pessoal do vice-prefeito reeleito Carlos Humberto, que cumpriu tudo na mais perfeita ordem. Apoio, aliás, que ele dedicou em igual intensidade a todos. O partido cresceu significativamente nesta eleição sob a liderança dele. O partido elegeu três vereadores e por pouco não chegou a quatro. Foi o segundo mais votado da cidade. No estado, mais que dobrou o número de prefeitos eleitos. Devo tê-lo decepcionado, embora ele tenha outra visão - ele costuma só ver vitórias, mesmo nos momentos e nas consequências ruins. Ele considera tropeços como lições para desviar-se das pedras do caminho. Apanágio, afinal, dos verdadeiros líderes - que ele é, incontestavelmente. Hosanas!


Mas a eleição de agora, em qualquer aspecto analítico, produziu boas lições. Elegeram-se bons e maus. Reelegeram-se bons e maus. E muitos bons ficaram de fora, injustamente. Mas é do jogo. Perder por um ou perder por dez é muito igual.

Política é um jogo como qualquer outro, com consequências que vão do júbilo ao desconforto, chegando muitas vezes à angústia do erro irrecorrível de um mandato desastroso. E então, doravante, prefiro ser expectador e viajante das agruras, porém apenas anotando e comentando os dissabores e os meneios alheios.

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