A sua bênção, minha mãe Senhora Dona Amarfilina Martins Machado


Aniversário de nascimento de mamãe - Senhora Dona Amarfilina Martins Machado - em 1905. Num dia 15 que ela, sempre humilde e modestamente, comemorava apenas com sua alegria cabocla.

Lá se vão 116 anos e os momentos em que consegui compartilhar com ela, até seu falecimento doloroso em 1 de novembro de 1980 estão ainda muito vivos e profundos em mim.

Senhora Dona Amarfilina, analfabeta e contudo de uma inteligência aguçadissima para tudo ao seu redor, tinha o condão de fazer amizades com uma facilidades muito doida. Acho impossível alguém não tê-la venerado enquanto viveu e parcerizou suas passagens por onde esteve.

Tinha facetas especiais, como interiorana de raiz: adorava plantar - e plantava muito, de árvores de todos os tipos a hortas maravilhosas, para consumo familiar e da vizinhança.

Cozinhava maravilhosamente, com arte e denodo. Suas minestras até hoje são insuperáveis. Seus manjares alternativos de tomates verdes fritos com ovos marcaram minha vida, após meus treinos de futebol no Gremio Fronteira, pelos começos de 1960.

Rosquinhas de polvilho, rabanadas, ela as produzia com um sabor inusitado. Quem sabe temperando com o seu amor.

Mas tinha outra faceta: decidida ao extremo. Dois episódios marcantes: um dia ela apareceu com um carnê de aposentoria pelo Funrural. Como conseguiu isto, com suas limitações? Com proximidade e amizade com a gerente local do Instituto de Previdência. Foi orientada, buscou documentos devidos sozinha (ninguém nunca soube disso até aparecer com o carnê) e obteve aprovação. Era um salário mínimo, que ela aproveitava muito bem e se sustentava.

Outro episódio foi um dia, quando ela, por uma dessas indiferenças da vida, deixou de pagar a conta de luz e os funcionários da Força e Luz foram lá em casa desligar. Ela pediu para não fazerem que iria pagar logo depois. Não ouviram. Desligaram. Então ela, na presença dos funcionários, foi lá atrás de casa, pegou um machado e veio pra cima. Eles, assustados, correram. Mas ela, disparando sua ira, disse-lhes: "Vocês não precisam mais religar esta merda". E destruiu a machadadas o relógio da luz e toda a sua estrutura. Claro, os caras se foram e nunca mais apareceram.

Daí em diante, vivemos à luz de velas e lamparinas. Sem mistérios. Os banhos eram mesmo de gamela com água aquecida na chaleira. E fim.

Senhora Dona Amarfilina, digna mãe de sempre, saudade do teu colo, minha velha. Me dê sua bênção. Estou necessitado. Um dia sei que terei a felicidade suprema de estar contigo novamente e para a Eternidade.

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