• Aderbal Machado

A punição ao cantor gospel, artista eventual das ruas da cidade: uma contradição social

Confiscaram equipamento modesto de som de um cidadão, intérprete de música gospel nas calçadas da cidade, sem afrontar espaços vitais à circulação, sem decibéis exagerados (pois eu mesmo o vi e ouvi, várias vezes, na calçada ao lado do Shopping Atlântico e não detectei esse exagero, até pelo contrário) e cuja atividade servia de seu sustento. Fazia o que sabia fazer. Ou sabe. Qual o crime? Qual a agressão às posturas? Tecnicamente poderão apontar as que quiserem. E então pergunta-se: caso único? E os craqueiros esparramados por calçadas de toda a cidade, inclusive na areia da orla e nas calçadas da Avenida Atlântica e praças?

E os churrasquinhos nas calçadas em frente a condomínios nas áreas mais nobres da cidade? Condena-se ou não. Deixa pra lá. Esses eu também admito. É a cidade exsudando vigor e alegria, confraternização, harmonia humana. Porejando força e sentimentos bons. Víviva e bela como sempre foi, é e a gente deseja e briga para que seja sempre. Melhor se não houver esses percalços sociais que ferem a sua magnitude inegável e reconhecida. Permita-se mais. Criem-se regras, sim, mas não se vede a livre iniciativa dos modestos e dos mais expressivos. A cidade é isto. É a sua cara. Só falta alguns entenderem isso com mais amplitude.

A atitude de penalizar o cidadão intérprete de música gospel, inclusive, contraria toda a excelente campanha motivacional de não se dar esmola na cidade ("Não dê esmola, dê oportunidade"). Que contradição! O cidadão está aproveitando sua oportunidade, criada por ele mesmo e sua arte e vocação e o induzem, com a punição, a pedir esmola.

Relembro, com saudade, do meu tempo de Diretor de Cultura de Balneário Camboriú, nos governos de Pavan e Spernau. Nunca vedei esse tipo de atividade, mesmo ante denúncias e deduragens. Pelo contrário, até, não só permiti como produzi eventos em plena calçada da Atlântica. Numa desses ocasiões, apareceu por aqui um grupinho argentino de rapazes, pedindo para apresentar-se e, em troca, ganhar um dinheiro da própria população, por doações espontâneas. Era um grupo cover dos Beatles, com instrumentos musicais em miniatura. Surpresa: eram excelentes, foram muito aplaudidos sempre e ficaram o tempo inteiro na cidade, ganhando e gastando aqui seu dinheiro ganho por doações.

Relembrando outra coisa: nos tempos áureos do Mazoca como secretário de Turismo, ele permitiu que cada quiosque podia contratar um cantor ou grupo musical para cantar no seu território, para atrair e agradar clientes. Sem equipamentos eletrônicos, inclusive. Funcionou bem até que alguém reclamou do "barulho". Essa matou. Barulho...

Já fomos uma cidade musical. Além desses fatos do passado, houve um tempo em que todos os bares e restaurantes tinham seus cantores contratados. Ainda há alguns, mas a sua presença se tornou um inconveniente para muitos. Por causa do "barulho".

Finalmente, ainda quando diretor de Cultura, produzi alguns eventos na Praça Tamandaré. Não foram poucas as vezes que um morador de um prédio ao lado foi no Departamento reclamar do barulho (mesmo dentro do horário permitido por lei, até 22 horas) porque isso interferia pra ele "assistir televisão". Faltou pouco pra mandá-lo pra um lugar que ele não gostaria de ir. Muito pouco. Mas o cargo pesou e refleti.

Um abraço. Ideias precisam ser expressas. A gente só muda assim.

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