• Aderbal Machado

A corrupção eleitoral de antigamente era, pelo menos, mais elegante e clara

1. Vivi o tempo em que, pelas distâncias das regiões inóspitas, permitia-se aos partidos transportar os eleitores até o local do voto. Muitas vezes em carroçarias de caminhões. E os partidos custeavam as refeições daquela gente, em hoteis e restaurantes previamente contratados. Tiquetes eram entregues ao eleitor como "vale almoço". Os hoteis e restaurantes serviam e, milagre: no dia após a eleição, iam à sede dos partidos receber e RECEBIAM. Em grana vivíssima. Ah, sim: os hoteis e restaurantes se dividiam em "da UDN" e "do PSD". E os eleitores não se misturavam. Era "pecado".


COMENTANDO: inequivocamente, fidelidade partidária era coisa muito séria naquela época. pessedista era pessedista, udenista era udenista. E fim. Impensável passar de um lado para o outro; impensável um eleitor de um partido votar no adversário. Nem parentes, se em partidos diferentes, aceitavam isso. Nem irmãos. Dir-se-ia que hoje seria cooptação (dar almoço e transporte para eleitor) e vilipêndio à democracia, corrupção. Mas era normal, porque não se tratava de um comprar o que era do outro, ninguém forçava nada. Era natural e aceito por todos os lados. Hoje, com todas as restrições e punições, há até pior. No escondidinho.


2. Vivi tempos de eleições em que era permitido aliciar eleitores na própria fila da votação, entregando cédulas com os nomes dos candidatos (naquele tempo essas cédulas eram colocados num envelope e depositadas nas urnas. E valia. Podia ser uma cédula apanhado do chão). E a corrupção não era maior do que hoje, tanto em relação ao voto quanto em relação à atuação de muitos dos eleitos.


COMENTANDO: os aliciamentos de hoje tem outros modelos. Até violência ou ameaças aliciam. Promessas de cargos e vantagens aliciam. E a compra de votos se dá a céu aberto e à luz do dia, com retaliações legais e judiciais, é verdade. Porém, nem sempre cumpridas. Naquela época, pelo menos, a coisa era franca e não privilegiava ninguém. Era cada um por si e Deus por todos. Quem podia mais, chorava menos. Como disse Stanislaw Ponte Preta, o saudoso Sérgio Porto: "Ou se acabe com a roubalheira ou locupletemo-nos todos".


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